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03/12: Hoje é o nosso dia

03/12: Hoje é o nosso dia
dezembro 3, 2015 Nós Todos
André sorri para a foto, sinalizando positivo com as duas mãos. Ele usa a camisa amarela da seleção brasileira.

Por: André Nóbrega

Hoje é um dia histórico. Não serão necessárias marchas para bradarmos as nossas reivindicações. Embora existam muitas injustiças com as quais somos confrontados, o que pesa neste momento é outra coisa.
Não que os incontáveis descasos, os claros abusos com os quais somos defrontados não nos pesem mais. Pelo contrário, ainda dói não poder exercer uma cidadania plena. Se a cada ida para a rua, os buracos, as calçadas irregulares, as pedras portuguesas apresentam uma falha menção ao direito de ir e vir , juro ,pelo menos hoje, não me revoltar.
Sei das condições injustas impostas para as pessoas com deficiência. Constato com preocupação a ausência de políticas públicas efetivas, sólidas nas transformações pensadas para a minha cidade, a futura sede dos Jogos Paraolímpicos. Embora ela seja maravilhosa, tenha uma natureza exuberante, eu nem sempre consigo desfrutar de alguns benefícios básicos desse lugar fantástico.
Não consigo ir à praia sozinho, vivo o dilema de habitar uma cidade sitiada, com lugares onde até posso circular, e outros, que devido à falta de acessibilidade, estar na rua me coloca em permanente situação de risco. Mas, na boa. Isso, hoje, não me aflige tanto.
Porque sinto uma representatividade incrível se organizar. Hoje, o meu peito se inflama, a minha alma canta. Vários movimentos ao redor do Brasil me fazem ser mais esperançoso com as mudanças do que triste com as desigualdades que sofro. É como se estivesse sendo abraçado por mais de 45 milhões de pessoas com deficiência daqui, e, de repente, fosse fulminado por um ímpeto tão revolucionário quanto acolhedor.
Hoje é o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Como a história da luta nos mostra, ter o reconhecimento da ONU para a causa não foi algo repentino. Esse carimbo de legitimidade não foi dado ao movimento das pessoas com deficiência de forma abrupta ou gratuita.
Em 1982 , a Assembleia Geral da ONU formulou um programa com um objetivo específico:atender às necessidades das pessoas com qualquer tipo de deficiência. Assim nascia o Programa Mundial para as Pessoas com Deficiência.
Passados dez anos, a Assembleia institui o 03 de dezembro como sendo o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Desde então, a cada ano,a partir de um tema específico, definido pela Assembleia Geral da ONU,são criados pelo mundo programas de ação que visam esclarecer as nossas demandas , efetivar campanhas , debates que esclareçam a todos assuntos capitais correlacionados com o tema. A pauta deste ano é: “A inclusão importa: acesso e capacitação para pessoas de todas as habilidades”.

A amplitude do feito não ocorre somente por um eco global em nome da causa, comprometido apenas com a sinalização de algumas demandas essenciais nossas. Não, vai muito além disso. Na pauta de muito dos encontros promovidos entre representações políticas, lideranças dos movimentos inclusivos,estarão sendo discutidas maneiras para efetivar as conquistas sociais já asseguradas . No Brasil, em razão da proximidade da Lei Brasileira de Inclusão, a entrar em vigor já no início do ano que vem, o centro de muitos debates se dará pelos efeitos sentidos pelas amplas mudanças ali asseguradas.

Não é que andar na rua hoje, nessa manhã nublada do dia 03 de dezembro tenha virado algo fácil. As calçadas horríveis, esburacadas continuam a me esperar. Por mais feliz que esteja, bastará me descuidar um pouco para eu cair. Mas isso é um fato mínimo, insignificante. A luta pela inclusão sempre foi feita por gente que beijou muito o chão, e se levantou para prosseguir o seu caminho.

Qualquer cadeirante sabe disso, constatou o quão penoso é ter a sua cadeira de rodas derrubada devido a uma inclinação errada das calçadas. Ainda sim, repito: hoje isso não importa. Nem se vai chover mais tarde. A capacidade de prover mudanças, de estendermos os nossos desejos enquanto cidadãos dependerá da nossa luta. E tempos ensolarados, tranquilos, podem ser breves, o que precisa ser permanente é o nosso ímpeto de luta.

Mesmo assim, hoje, o mais importante é saber que não estou sozinho nessa luta. Somos no Brasil uma nação com mais de 45 milhões de pessoas, e a gente não quer só ter os nossos direitos reconhecidos, assegurados. A gente também quer comida, diversão e ballet. Brindemos o dia 03 de dezembro, vamos nos abrir para as transformações que virão. Porque sem a inclusão da pessoa com deficiência no Brasil não haverá cidadania.

Um abraço para todos,

André Nóbrega

André Nóbrega é militante dos direitos das pessoas com deficiência desde 2009 e escreve para o blog Pessoas Com Deficiência.

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