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Construindo o abstrato com palavras

Construindo o abstrato com palavras
Maio 30, 2017 Mauana Simas

No começo desse ano, tivemos a sorte de audiodescrever dois projetos de animação.

Projetos de animação são sempre um desafio à parte para audiodescritores porque, em grande maioria, são construídos com elementos abstratos, personagens meio humanos meio animais, acontecimentos surreais, enfim.

Animações tornam a fantasia em realidade. E o trabalho dos audiodescritores um pouco mais difícil 😉

O primeiro dos projetos não tinha qualquer diálogo e outro, pelo contrário, personagens ultra-falantes. No curta-metragem Brinquedo Novo, a Audiodescrição seria a referência absoluta do espectador cego. Sem ela, era improvável que alguém que não enxerga pudesse acompanhar a narrativa. Já no segundo, a série Oswaldo, nossa narrativa descritiva precisaria estar milimetricamente encaixada nos (muito) breves espaços de silêncio.

Na parte superior, o projeto de edição de "Brinquedo Novo", em que os trechos de audiodescrição acompanham quase todo o áudio original. Abaixo, frame de "Oswaldo" em quem os personagens Leia e Oswaldo, um pinguim, conversam.

 

“Brinquedo Novo”, o papel em branco:

 

Uma das frases mais clássicas dos audiodescritores de conteúdos audiovisuais é: “mas não dá tempo”. E, normalmente, não dá mesmo. São milhares de elementos a serem descritos em curtíssimos espaços de tempo. E como uma imagem vale mais que mil palavras, está aí o problemão.

No caso de “Brinquedo Novo”, era justamente o oposto. Havia tempo, bastante tempo, para a Audiodescrição. Nosso desafio era construir a narrativa sem exagerar, respeitando os sons originais e buscando um texto com a cadência e a delicadeza do filme. Não queríamos nos empolgar demais com a liberdade e acabar entupindo a Audiodescrição com elementos que fossem pouco relevantes para a história.

Nossa solução foi, principalmente, dosar as falas e as pausas. Era importante entender a hora de parar, a hora que o filme demandava um pouco de silêncio. Na história, o bebê, personagem principal, se entediava com os brinquedos à medida que eles ficavam mais velhos. Esse tédio, essa monotonia, precisava também estar presente na AD. Por mais que houvesse tempo disponível para a descrição, em algumas horas o silêncio era indispensável.

Em outra situação, tivemos que abrir mão de uma descrição mais poética e buscar uma solução mais prática. Decidimos usar o termo “Ursinho Tijolo” para fazer referência ao ursinho, que ia se transformando em tijolo à medida em que o bebê se desinteressava. Tivemos que alterar o nome do personagem para reforçar a transformação física que ele sofria ao longo da narrativa.

 

Palavras do Consultor: É impressionante como um episódio que era só música foi ganhando forma à medida em que eu o fui desvelando através da audiodescrição. Num curta em que não há palavras, a audiodescrição é mais do que tudo, a ferramenta que faz entender que é um bebê que ganha um presente do qual não tarda a enjoar e não uma expedição ao espaço sideral. Por que, antes da audiodescrição, podia ser isso e muito mais. Podia ser tudo.

 

“Oswaldo”, o pinguim-humano

 

Já na série Oswaldo, nosso panorama era o oposto. Eram muitas falas, quase sem espaço para a Audiodescrição. Se por um lado os diálogos possibilitaram a compreensão da maior parte da narrativa, por outro, em momentos-chave, a visualização do objeto, local, personagem ou situação era crucial para o desfecho. E nesse caso, a Audiodescrição precisava ser mais acertiva e até mesmo invadir um trecho dos diálogos (o que se deve evitar ao máximo).

Por exemplo, quando o narrador da série faz referência a uma das personagens pelo nome, Leia. Mas, na verdade, referia-se a uma “Leia de Mentira”, que na trama passou-se pela menina para tentar enganar o personagem Oswaldo. O narrador dizia “Leia”, mas viamos na tela que não era a verdadeira Leia. Não havia espaço de silêncio disponível e optamos pela pequena invasão com apenas três palavas – “Leia de mentira” – mas que permitiram que a piada fizesse sentido para o público com deficiência visual.

Aliás, não estragar ou explicar as piadas de “Oswaldo” foi um exercício constante de escolha de tempos e palavras. Em uma das cenas do episódio “Morte de Principiante”, Oswaldo se assusta quando não consegue ver seu próprio reflexo porque não era um espelho, era um vidro sendo limpo por dois irmãos gêmeos e vestidos iguais que faziam movimentos perfeitamente sincronizados. Se usássemos a palavra “vidro” antes disso ser revelado, poderíamos influenciar ou direcionar o pensamento do usuário da Audiodescrição. E se disséssemos “espelho”, estaríamos descrevendo algo que não estava ali. Difícil, não é?

 

Palavras do Consultor: E mesmo na série Oswaldo, em que pelas falas se pode entender talvez 80 a 85% do conteúdo, muitos silêncios são a fronteira onde o telespectador cego, no caso eu, entro em um mundo de ignorância. O passaporte para voltar é pro vezes composto de três ou quatro palavrinhas, que parecem mágicas, porque por sua simples presença fazem aquele ruído ininteligível ter sentido e fazer sentido. Como eu saberia, para ficar na característica mais óbvia aos providos de visão, que o Oswaldo é um pinguim? Uma vez que tal característica não é mencionada uma vez sequer nas falas dos personagens, só a audiodescrição da abertura foi capaz de me esclarecer algo que na verdade nem era uma dúvida, pois eu tinha certeza de que o Oswaldo era um menino qualquer. Assim, quando era pequeno e via as aventuras de Tintim, imaginava que ele fosse um coelho.

 

Mas as soluções que encontramos, só podemos revelar quando a série for ao ar!

Acompanhe a gente pelo blog e pelas redes sociais que a gente revela tudo 🙂

 

Grande abraço,

Marcos Lima e Mauana Simas

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