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Acessibilidade na Cultura e o Grito de Independência das Pessoas com Deficiência

Acessibilidade na Cultura e o Grito de Independência das Pessoas com Deficiência
dezembro 3, 2016 Nós Todos
Marcos Lima segura a tocha paralímpica em evento de lançamento

Por Marcos Lima

Qual é a primeira coisa que vem à cabeça quando se pensa em acessibilidade? Rampas, banheiros acessíveis e barras de ferro são certamente o top of mind do que a maior parte da população entende por um ambiente que permite a interação de todos em igualdade de condições. E a acessibilidade nas construções é fundamental para que as pessoas com deficiência, e todas as deficiências, possam circular com dignidade, autonomia e independência por edifícios públicos e privados.

Mas a acessibilidade física é só uma parte de todo o processo. Um outro tipo de acessibilidade, ignorada por muitos e considerada ainda como o patinho feio das adaptações, é aquela que permite a pessoas com deficiência, principalmente cegos e pessoas com baixa visão, acesso a filmes, peças de teatro,produções televisivas, partidas de futebol e espetáculos diversos. Garantido por lei e incentivado por diversos programas de governo ou de ONGs, o acesso à cultura é ainda bastante discriminatório. Afinal de contas, nesse mundo tão visual, nada mais
natural do que as produções culturais serem predominantemente visuais. Duvida? Feche os olhos e tente assistir um programa na TV, qualquer programa, qualquer horário, qualquer canal.

O Brasil ainda está engatinhando no quesito acessibilidade cultural, mas alguns passos estão sendo dados, como a lei que garante o mínimo crescente de algumas horas semanais de produção acessível nos canais de televisão. É um começo, o início de uma estrada pavimentada com audiodescrição, narração audiodescritiva e até a dublagem.

Sim, até mesmo a por vezes difamada dublagem é um meio de acessibilidade cultural. O que para alguns é chato e desnecessário, é recurso essencial para aqueles que não dominam uma língua estrangeira e têm o azar de não
poder ler a legenda ou, mesmo a dominando, precisam ser poupados do esforço de ter que entender um idioma diferente enquanto também tentam compreender as imagens que não estão vendo.

E o que dizer da audiodescrição? Tal recurso teria me evitado passar a infância inteira pensando que as pancadas que o Chaves levava do seu Madruga eram com espadas, devido ao barulho de ferro que fazem. Fora outras certezas que nem penso em contestar, mas que seguramente estão totalmente fora da realidade. Cego por vezes nem sabe que não sabe. Um exemplo se deu na minha única visita ao gramado do mítico estádio do Maracanã. Quando me perguntam o que mais me impressionou eu fico até sem graça de dizer que não foi o gramado em si, nem as traves, mas sim o
banco de reservas. eu não fazia a menor ideia que um banco de reservas era do jeito que é: uma cobertura que logo associei aos pontos de ônibus do Rio sobre uma fileira de mais de vinte poltronas daquelas de cinema, com lugar para copo e tudo! O pobre cego aqui achava que o banco de reservas era apenas um banco de madeira ou de cimento, como estes que a gente encontra em algumas praças (mas na minha imaginação eles não tinham nem encosto). E nunca ia passar pela minha cabeça perguntar para alguém como era o banco de reservas, simplesmente porque eu achava que sabia, não era algo que vinha à minha mente, já que está longe de ser um dos principais artífices de um jogo de futebol.

Enquanto a ampla acessibilidade cultural é apenas um sonho distante, eu fico aqui esperando pelo dia em que eu poderei assistir a um programa de televisão, a uma peça de teatro ou a um filme sem precisar ficar cutucando a pessoa do lado, “o que que está acontecendo?”. Independência ou sorte, sorte de ter alguém disposto a passar duas horas de filme explicando cada cena e ignorando os olhares de reprovação dos que estão ao redor e só querem silêncio para assistir a seu filme.

 

Marcos Lima é Jornalista, autor do blog “Histórias de Cego”, Palestrante e Consultor de Audiodescrição na Nós Todos Filmes.

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